Entrevista: Virgílio Vasconcelos

Virgílio Vasconcelos é um artista Brasileiro e excelente entusiasta do Blender, principalmente quando falamos de rig e animação de personagens. Por isso resolvi convidá-lo para fazer a primeira entrevista do Blog e, sem problema nenhum, cedeu a entrevista para nós. Espero que gostem!

Blender Total – Quando você sentiu vontade de trabalhar com 3D e animação? Existe alguma influencia de sua infância para essa paixão como você descreve em seu site?

Virgílio – Desde criança eu sempre tive lápis e papel na mão para rabiscar, e desenhava tudo o que via. Na escola eu fazia caricaturas dos colegas e professores, sempre escondido, e começava minhas primeiras ‘animações’ com flipbooks feitos nas bordas dos livros.

Quando tive acesso a um computador, desenhar e fazer animações foi algo que quis fazer logo de início. Foi algo que aprendi aos trancos e barrancos, descobrindo novos programas e tentando entender como tudo funcionava. Geralmente minhas experiências resultavam em coisas que hoje acho horríveis, mas que na época eu achava bacana. =)

Blender Total – Como você descobriu o Blender e por que optou por trabalhar com softwares grátis e open source ao invés de outros programas?

Virgílio – Descobri o Blender ainda na versão 2.28. O ano era 2003, e eu tinha muita vontade de trabalhar com 3D. Eu fazia animações em Flash, mas queria fazer aquelas ‘coisas’ que via na TV e cinema. Nessa época eu já tinha tentado trabalhar com outros programas 3D (o Corel 3D e o 3D Studio – antes de virar ‘Max’), mas eles eram incrivelmente pesados para minha máquina. Foi aí que, pesquisando na internet, descobri um tal de Blender: leve, pequeno e gratuito (ainda não entendia essa história de ‘open-source’).

Inicialmente não dei muito crédito para o programa, mas resolvi ‘dar uma chance’ porque ele rodava bem em meu computador. Achei tudo muito difícil no começo, mas não por causa do programa em si, e sim por ser um programa 3D. Lembro que também achava complicadíssimo fazer qualquer coisa no 3D Studio, navegando por infindáveis painéis e menus com nomes complicados.

Ao aprender mais sobre o Blender e ver que era um programa fantástico e gratuito, aprendi também sobre a filosofia do software livre. Uma coisa foi puxando a outra, descobri o universo dos programas de código aberto e acabei me tornando um defensor do Blender, Linux e software livre em geral. Hoje uso exclusivamente programas de código aberto em casa.

Blender Total – Você trabalha ou já trabalhou com algum outro software 3D em suas produções?

Virgílio – Como ferramenta para as produções sempre usei apenas o Blender. Minhas experiências com outros programas foram só para estudo mesmo.
A única exceção foi em um trabalho que fiz junto com o estúdio NitrocorpZ para um comercial de uma nova bebida da marca Johnny Walker. Nele usamos o Cinema4D apenas para converter alguns modelos .3ds que o Blender teve problema para importar. Para este comercial não houve animação de personagens: apenas criei (ou modifiquei) alguns modelos, apliquei texturas, iluminei e animei a câmera. Entreguei pequenos clips com essas animações que foram depois compostas no vídeo final com o lettering, trilha e locução.

Blender Total – Muitas pessoas perguntam-se se vale apena fazer algum curso para aprender a usar o Blender. Para chegar ao seu conhecimento atual em animação você fez algum curso?

Virgílio – Acho que isso varia bastante para cada pessoa. Eu nunca fiz curso algum sobre animação ou 3D, mas sempre estudo muito. No início foi bastante complicado, pois não havia a profusão de materiais que há hoje, como vídeo-tutoriais, documentos em português e até livros como o do Allan Brito. Lembro que li mais de uma vez o conteúdo daquele documento oficial da Fundação Blender, o Guia 2.3, que hoje foi transferido para o wiki.

Sobre animação, que é outro assunto muito vasto, também tive que buscar por conta própria a maioria das coisas, uma vez que não há curso de animação onde moro (Goiânia). Visito vários sites, como o do Keith Lango ou o do Carlos Baena, que têm muitas informações valiosas para quem quer trabalhar com animação. Também compro todos os DVDs que posso, assisto todos os ‘making-of’ e vejo algumas cenas frame a frame. Adquiri também alguns livros importantes, como a ‘Bíblia’ The Animator’s Survival Kit.

Faço este trajeto autodidata por falta de opção mesmo. Em uma situação ideal, gostaria de estudar animação na escola francesa Gobelins, ou fazer cursos online como o do Animation Mentor ou o curso rápido do Keith Lango – o Animator Personal Trainer.

Blender Total – Seus trabalhos são apenas artísticos ou você também produz trabalhos comerciais?

Virgílio – Apesar de a maioria dos trabalhos que estão no meu site serem produções próprias, também faço trabalhos comerciais.
A série das Lendas Amazônicas, por exemplo, foi um trabalho comercial que deu um resultado muito bacana. Nesta série fui o responsável por tudo relacionado a 3D (modelos, luzes, rigs e animação), enquanto Suryara Bernardi fez o design de personagens e Jovan de Melo cuidou das pinturas e texturas.

Há outros trabalhos comerciais que fiz e não incluí em meu site por não serem animação de personagens, mas de modelagem e render de produtos ou objetos, como a lata da bebida ‘Marquis Platinum‘ (um energético que foi lançado nos EUA) para o site do produto, feito pelo estúdio NitrocorpZ. No momento, estou fazendo um trabalho comercial em que faço a modelagem, rig e animação do personagem: este com certeza irá para meu site. =)

Blender Total – Quando está trabalhando em algum projeto, é fácil sentir dificuldades no meio da produção? Qual a pior dificuldade que você já teve e como fez para superá-la?

Virgílio – Felizmente cada novo trabalho é um desafio diferente. Sempre há coisas novas a serem aprendidas, pois sempre aparecem novos problemas pra resolver. =)

A segunda parte mais legal (pois a primeira é ver tudo pronto, hehe) é conseguir achar uma solução para aquele problema que te faz arrancar os cabelos. No momento estou produzindo uma animação própria onde quero alcançar um visual menos ‘3D’ e mais próximo dos cartoons da década de 50. É um desafio bacana que estou tentando resolver com o uso extensivo de ferramentas como o Gimp e Inkscape além de muita coisa no Node Editor do Blender.

Blender Total – Qual a área de computação que você mais gosta, 3D ou 2D? E qualquer estilo você prefere, cartoon ou realista?

Virgílio – É realmente uma pergunta difícil de responder, e eu nem gosto muito de fazer distinções entre um e outro. Cada um tem suas vantagens e desvantagens, e hoje acredito que cada vez mais as pessoas têm percebido que é possível conciliar o melhor ‘dos dois mundos’ para fazer coisas bacanas. Exemplo disso é a animação Cocotte Minute, feita por alunos da Gobelins em 2006 que, em minha opinião, é um dos melhores exemplos de como unir 2D e 3D de forma harmoniosa e inteligente.

Agora entre cartoon e realista, sou adepto do cartoon. Não tenho nada contra realismo como um exercício de pesquisa. Eu mesmo já fiz alguns como meio de aprendizado, mas acho que a imagem perde muito em criatividade. Para mim, fazer realismo é restringir muito uma ferramenta que nos permite ir muito além do que nossos olhos vêem no dia-a-dia.

Blender Total – Na sua opinião, qual o melhor trabalho que você já produziu até hoje?

Virgílio – Engraçado, mas pra mim meu melhor projeto é sempre aquele que estou fazendo. Sempre que olho meus trabalhos anteriores, fico encontrando um monte de falhas que ‘desta vez não vou repetir’. =)

Como exemplo, sinceramente acho que meu melhor projeto é o curta que estou produzindo desde o final do ano passado. A produção teve uma grande desaceleração por causa de outros compromissos, mas não está parada. Espero lançá-la em breve.

Blender Total – Tem algum projeto pessoal em andamento?

Virgílio – Tenho dois atualmente: um comercial e outro pessoal. Ambos acho que ficarão bem bacanas e o comercial ficará pronto logo (afinal de contas, este tem prazo, hehe). Assim que terminá-las meu site será atualizado. =)

Blender Total – Quais são seus planos para o futuro? Algum projeto diferente do que você já produziu até hoje?

Virgílio – Bem… como planos para o futuro eu gostaria de conseguir dedicar 100% de meu tempo à animação. Hoje ainda preciso ter um emprego em outra área (como programador), mas espero conseguir fazer da animação além de uma paixão ser também minha fonte principal de renda.

Blender Total – Que conselho você dá para o pessoal que está começando em CG e tem interesse em animação?

Virgílio – Virgílio Meu conselho principal é: estudem a ferramenta, mas NÃO fiquem bitolados. Ferramentas vêm e vão, mas quem as controla deve permanecer. Devemos ter um profundo conhecimento da arte da animação em si – independente se é 2D, 3D, stop-motion, feita no Blender ou no Maya.

E estudem arte. Desde fotografia, passando por cinema e pintura até os mestres da animação da Warner e Disney das décadas de 40 e 50. Com bons fundamentos em arte, criar (com lápis, pincel ou um computador) fica mais fácil.

Agradecemos a entrevista e espero que todos tenham gostado! Sucesso para o Virgílio e boa sorte com o Blender!


6 Respostas to “Entrevista: Virgílio Vasconcelos”

  1. Rapaz vo mostra essa entrevista p todos meus aluninhos agora.
    Parabens pelo trabalho Virgílio ^_~

  2. Parabéns, ao entrevistado e ao entrevistador !!!

    Muito legal a entrevista.

  3. Bacana! gostei muito.

  4. Muito legal!
    Me identifiquei bastante com a história do Virgílio.
    Parabéns!

  5. Muito bom, fiquei muito feliz em encontrar essa entrevista quando procurava material sobre o blender. rs, interessante que conheci o software através do próprio Virgilio, no Fórum Goiano de Software Livre em Goiânia.

  6. eu adorei a entrevista, animação tambem e minha paixão me dedico ao maximo a isso,mais eu basicamente não sou muito boa com tecnologia 3D, poriso sou desenvolvida em lapis e papel,mas agora minha curiosidade chegou ao limite,quero dar vida as minhas criações e ver como ficam.

    obrigada Vigílio, e exelente trabalho

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