Fundamentos 1: Cores

Vamos deixar o Blender um pouco de lado. Mas só um pouco! O assunto é cores e o objetivo é que você aprenda a usá-las em seus renders para dar um toque especial no resultado. Algumas mudanças bem simples podem melhorar o aspecto de sua obra.

Cores

Do You Dream In Color? Imagem de Peter Lee.

Vou tentar apresentar, de forma introdutória, um pouco sobre teoria das cores. Também algumas dicas e conceitos básicos que eu uso e vejo no trabalho de outras pessoas. Nada aqui é regra, então é claro que você não precisa seguir tudo em todos os seus trabalhos. É importante, porém, que você conheça essas “regras” para então poder quebrá-las.

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Antes de começar, uma pequena nota: também estou aprendendo, então se você é expert no negócio, mas expert MESMO, e encontrar algum erro, pode colaborar corrigindo :).

Por que aprender sobre cores?

Saber que misturando azul com amarelo obtém-se verde não é mais suficiente. Na busca por aquele render perfeito todo detalhe importa e cores não podem ficar de fora.

Fazer algo no Blender significa, entre outras coisas, criar algo que é prazeroso para os olhos. Aprender um pouco sobre teoria das cores vai ajudar a incorporá-las nas suas criações de forma correta. Você vai deixar de tomar decisões baseadas apenas no “achei bonito” e passar a entender porque a imagem ficou bonita. Ou então porque ela não ficou bonita e assim saber o que fazer para melhorá-la.

Mais uma vez, nada é regra. Afinal, todos tem um gosto diferente e cada trabalho tem suas características. Não vamos esquecer da subjetividade de um trabalho artístico.

Mas de quais cores estamos falando?

Certo, o post é sobre cores. Mas quais cores? A cor da roupa do meu personagem, do olho dele ou do carro que eu modelei? De tudo isso! O que você vai perceber é que cada cor transmite uma sensação e isso pode ser aplicado em qualquer parte do seu trabalho. No entanto, a aplicação das cores é mais efetiva e perceptível quando tratamos de iluminação. Então um bom começo é experimentar diferentes opções de iluminação, que refletirão no aspecto geral da imagem. Depois, conforme você for entendendo melhor, se preocupar com cores de elementos menores na cena.

O que é uma cor?

Cor é a percepção da luz. E a luz “é composta” de várias cores. Nós conseguimos enxergar as cores do espectro visível: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta. A junção de todas essas cores forma o branco. Você provavelmente já sabe disso, mas um prisma pode ser usado para decompor a luz branca e revelar as cores que a compõem:

Capa The Dark Side of the Moon

Capa do álbum “The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd.

Quando um objeto recebe uma luz, alguns comprimentos de onda são absorvidos e outros refletidos. Nós, então, percebemos essas ondas refletidas como cores. Quando um objeto verde, por exemplo, recebe uma luz, ele vai refletir apenas os verdes para o ambiente e para o observador (nós), absorvendo quase que totalmente as outras faixas da luz (vermelho, azul…).

Superfície verde

A superfície reflete a faixa de luz verde e absorve quase que totalmente as outras.

Uma cor pode ser classificada de acordo com três características:

Matiz: é a característica mais “comum” da cor. Quando dizemos qual é a cor que vemos, estamos identificando-a pela matiz: vermelho, azul, amarelo etc. Dessa forma, é comum a palavra cor ser usada como sinônimo de matiz. A matiz está associada ao comprimento de onda dominante, como no caso da imagem acima, na qual o comprimento de onda dominante é o verde, portanto a cor (matiz) é verde.

Exemplos de matizes

Diferentes matizes com o mesmo brilho e croma.

Brilho, valor e luminosidade: representam o índice de  intensidade luminosa da cor, ou seja, a quantidade de luz refletida pela matiz.

Variação de luminosidade

Variação de luminosidade (esquerda: escuro; direita: claro) com mesma matiz e croma.

Croma: está relacionada à pureza da matiz, que varia de intensa ou altamente cromática (pura) a neutra (sem cor: branco, cinza e preto). Cromaticidade pode ser apenas um dos nomes para a pureza da matiz. Um outro nome é saturação, bem mais utilizado. Na verdade, saturação seria a medida da pureza ou intensidade da matiz, mas vamos tentar manter a coisa simples por aqui.

Variação de croma

Variação de croma (esquerda: neutro; direita: intenso) de duas matizes com mesma luminosidade.

Então podemos dizer, de forma bem simplificada, que a matiz define qual é a cor, o brilho, valor e luminosidade o quão clara/escura é a cor e a pureza, saturação ou intensidade o quão viva é a cor.

Sistemas de cores

Dependendo do meio em que estamos trabalhando diferentes sistemas de cores são utilizados.

Quando misturamos cores em uma pintura ou num processo de impressão, usamos o sistema subtrativo. Nesse sistema, nós começamos com as cores primárias e terminados no preto. Misturando duas cores primárias temos uma secundária. Misturando uma secundária com mais uma primária temos um terciária e assim por diante. O que acontece é que a cada cor que é adicionada obtém-se um resultado mais escuro, que tende ao preto.

As cores primárias citadas acima geralmente são vermelho, amarelo e azul (RYB – red, yellow e blue, em inglês). Mas quando se trata de impressão, por exemplo, as cores primárias são ciano, magenta, amarelo e preto (CMYK – cian, magenta, yellow e key, em inglês).

Quando estamos num computador, as cores na tela são criadas com luz, usando o sistema aditivo. Nesse caso, quanto mais cor é adicionada mais claro é o resultado, que tende para o branco. As cores primárias utilizadas aí são vermelho, verde e azul (RGB – red, green e blue, em inglês).

Abaixo estão representados os sistemas CMYK (subtrativo), RYB (subtrativo) e RGB (aditivo).

Sistemas de cores

Da esquerda para a direta: CMYK, RYB e RGB.

Círculo cromático

O círculo cromático é uma forma de representar cores num círculo para perceber a relação entre cores primárias, secundárias e terciárias. Essa forma de representação também ajuda a entender o que são cores análogas e complementares, que veremos nos próximos tópicos.

Quando o círculo é desenhado, as cores primárias utilizadas geralmente são o vermelho, amarelo e azul (RYB). Para começar a representação, essas três cores são posicionadas no círculo. Depois, na divisa entre cada cor, é colocada uma nova cor, resultante da mistura das cores ao seu redor. Surgem as cores secundárias. Para obter cores terciárias o processo é o mesmo, e ele pode ser repetido de acordo com o nível de detalhe desejado.

Circulo de cores de Boutet

Círculo de Boutet de 1708 com 7 cores (esquerda) e 12 cores (direita).

É mais comum o círculo ser usado apenas com diferentes matizes, como é o caso acima, mas também é possível representar a variação de luminosidade.

Circulo de Bezold

Farbentafel, de Wilhelm von Bezold’s – 1874.

Cores quentes e frias

Cores quentes são o vermelho, laranja, amarelo e variações. Numa imagem, essas cores serão mais ativas e provavelmente vão chamar a atenção do espectador.

Exemplo de cores quentes

Moe’s. Imagem de Victor Hugo Queiroz.

Cores frias, por sua vez, vão ser as cores passivas numa imagem, ou seja, não vão chamar tanta atenção. Elas são o azul, verde, roxo e variações.

Exemplo de cores frias

Starry Night. Imagem de Mathias Pedersen.

A distinção entre cores frias e quentes pode ser feita pela forma como elas aparecem na natureza. Num dia de ensolarado ou num pôr do sol, vão predominar as cores quentes, enquanto num dia nublado ou chuvoso, as cores frias. Nos exemplos acima é perceptível a utilização de cores para a construção da atmosfera. A primeira mostra um ambiente aconchegante e acolhedor e a segunda frio e sombrio.

Relações e combinações de cores

E agora vem a parte interessante! A parte que você começa a escolher quais cores usar numa imagem.

O círculo para os exemplos abaixo é bastante simples e com ele vamos identificar algumas relações entre as cores e como podemos combiná-las.

Primeiro, o básico: as cores primárias utilizadas foram vermelho, amarelo e azul, como indicado na imagem. Essas cores são as mais básicas e não podem ser obtidas a partir da mistura de nenhuma outra cor. As cores secundárias são obtidas pela mistura de duas primárias. Misturando uma cor secundária com mais um primária, temos um cor terciária.

Cores primárias, secundárias e terciárias

Imagem criada a partir das representações de Janet Lynn Ford.

Usar o círculo cromático pode ajudar a selecionar cores que são harmoniosas. Para isso, existem algumas combinações predefinidas.

A mais simples dessas harmonias é a monocromática. Ela é criada a partir de uma única matiz com variação de luminosidade e saturação. Veja como é simples:

Exemplo de harmonia monocromática

Woodboy. Imagem de Michael Kutsche.

Outra harmonia resulta nas chamadas cores análogas. Quando usado numa imagem, esse conjunto de cores geralmente dá um resultado bastante prazeroso, porque as cores são parecidas. Então você pode escolher uma cor como base e formar um esquema de cores análogas para serem usadas em um imagem. Se a cor base for o laranja, as outras cores tenderão para o vermelho e amarelo, mas sem se distanciar muito da cor original.

Abaixo eu selecionei dois exemplos de cores análogas aplicadas em trabalhos.

Exemplo de cores análogas

Endzeit. Imagem de Michael Kutsche.

Exemplo de cores análogas

The Outpost. Imagem de Ognian Bonev.

Na primeira imagem, a cor base é o azul, e a segunda utiliza cores próximas ao laranja. Os autores provavelmente escolherem essas cores porque queriam passar sensações diferentes para quem vê a imagem, além de criar uma atmosfera apropriada. Perceba que não há grande variação de cores e que elas estão lado a lado no circulo cromático.

Outra combinação é a de cores complementares. Ao contrário das análogas, essas cores ficam distantes no círculo cromático, opostas. Teoricamente, quando cores complementares são misturadas, elas geram uma cor neutra (branco, cinza ou preto). É importante saber que, dependendo do sistema de cores usado (aditivo ou subtrativo), as cores complementares mudam, mas para nós isso não faz tanta diferença.

Quando cores complementares são usadas juntas, principalmente com bastante saturação, o efeito é de contraste. Se quero usar cores complementares, penso basicamente nestas combinações: vermelho com verde, azul com laranja amarelo com violeta. Variações dessas cores também podem ser combinadas. Ao invés de azul e laranja, por exemplo, é possível usar azul e amarelo e o resultado também será de contraste, visto que o amarelo é semelhante ao laranja.

Abaixo, mais dois exemplos, dessa vez mostrando o uso de cores complementares.

Exemplo de cores complementares

Heart of the Forest. Imagem de Tuomas Korpi.

Exemplo de cores complementares

Before Contact. Imagem de Andrey Maximov.

Nem sempre o uso de cores complementares é tão óbvio, mas nos exemplos acima o contraste é bem perceptível: na primeira temos azul e amarelo e na segunda verde e vermelho. O efeito visual é, sem dúvidas, bastante interessante.

Uma dica de uso de cores complementares é para destacar algum elemento do restante da cena. Se você modelou algum animal, digamos, e ele é azul, um fundo amarelo/laranja vai ajudar a destacá-lo. Se o fundo também for azul, provavelmente seu bichano não chame tanta atenção e o elemento principal passe a ser tão importante quanto um fundo vazio. O exemplo abaixo ilustra muito bem isso – não há muito trabalho no fundo, apenas uma cor complementar à do personagem, e o resultado é muito bom!

Exemplo de cores complementares

Freaky Bird. Imagem de Patrick Beaulieu.

Semelhante à combinação complementar, temos a complementar dupla. Esta funciona da mesma forma que aquela, mas dessa vez quatro cores complementares são escolhidas. Então, ao invés de apenas um par de cores, dois são usados . Veja estes dois exemplos e tente identificar as cores complementares:

Exemplo de combinação complementar dupla

medan di sore hari. Imagem de Henryca Citra.

Exemplo de combinação complementar dupla

jetsam city II. Imagem de Henryca Citra.

No primeiro caso a imagem é bastante colorida. Mesmo assim, acredito que podemos destacar dois pares de cores complementares: o primeiro é o céu, bastante visível, com tons de azul e amarelo. Mas se olharmos os detalhes, é possível também perceber o uso do vermelho e do verde, que, como você já deve saber, são complementares. Veja só os prédios; as cores variam entre tons de vermelho e tons de verde, assim como no chão, que é verde, e outros elementos, como os veículos, que são vermelhos.

Na segunda imagem, os tons de azul presentes do céu e na água estão em contraste com a luz amarela vinda do fundo. Ao mesmo tempo, o verde presente nas fitas do vestido da mulher é complementar ao vermelho das sombrinhas. Portanto, também é um caso de combinação complementar dupla.

Abaixo, as quatro combinações que vimos até agora e mais duas.

Esquema com as combinações de cores

Imagem criada a partir das representações de Janet Lynn Ford.

Uma das novas combinações presente na imagem acima é a tríade, que consiste basicamente em escolher três cores no circulo cromático de forma que a distância entre essas cores, por serem iguais entre si, formem um triângulo. Repare na imagem acima as cores no esquema triádico e veja como estão presentes abaixo:

Exemplo de combinação tríadica

Frame de Meet Buck. Animação de Denis Bouyer, Yann De Preval, Vincent E Sousa, Laurent Monneron, Julien Begault, Yannis Dumoutiers e Mickaël Védrine (site).

A outra é a complementar divida: uma matiz mais duas outras igualmente distantes de sua complementar. O resultado não vai ser muito diferente da combinação completar. Veja a imagem “Before Contact”, já usada como exemplo acima. Poderíamos dizer que trata-se de complementar dividida, levando em conta o vermelho como uma das cores e as outras duas o verde “amarelado” do chão e o verde “azulado” do fundo.

Estamos sendo bastante flexíveis aqui, afinal, são pequenas variações que, apesar de fazerem diferença no resultado, não demandam definir exatamente qual esquema estamos usando. Um dos motivos para isso é que estamos trabalhando com renderização 3D. Ao escolhermos as cores dos objetos da cena, por exemplo, na renderização elas apresentarão variações por causa de luz/sombra, Global Illumination, Ambient Occlusion etc.

Na verdade, esquemas de cores bem definidos são bastante usados por pintores. Nesse caso, os esquemas podem servir como palheta de cores, ou seja, se o esquema escolhido for complementar com as cores verde e vermelho, apenas essas duas cores de tinta (no caso de pintura tradicional) e as misturas delas serão usadas na pintura. No nosso caso, como não estamos pintando nada, isso não é necessário.

Use cores!

Depois de tudo o que vimos, podemos dizer que grande parte das escolhas de cores no seu trabalho vai ser feita a partir da experiência – coloca uma, não ficou bom, troca. Mas saber um pouco de como combinar cores com certeza pode ajudar! A dica final do post é essa: use cores! Já vi inúmeros trabalhos sem vida e/ou com cores que não valorizavam o que tinha sido feito. E nem era preciso refazer muita coisa para ficar mais interessante, como mudar a cor do fundo porque era a mesma do personagem. Tenha em mente que muitos fatores estão envolvidos no seu render e as cores não podem ficar de fora!

Para finalizar, fique com o curta de animação Parallel Parking, da Yum Yum, que utiliza bastante cores:

Este post foi baseado principalmente neste material (em inglês), seguindo a ordem dos conteúdos nele apresentados. Wikipédia também salvou a minha vida: 123, 4, 5.

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~ por tatasoka em 1 de março de 2011.

11 Respostas to “Fundamentos 1: Cores”

  1. Excelente artigo, Tatasoka

    O próximo deve ser ainda mais insipirador 😉

    Abraço e sucesso sempre

    \__/
    (oo)
    _||_
    erick

  2. Achei o artigo excelente, tratando de um assunto tão essencial e que muita gente acaba não dando a atenção que merece.

    Parabéns pelo trabalho!

  3. Realmente um excelente artigo. Aprendi muita coisa interessante com ele.

  4. Caramba…………..
    nunca pensei que as cores faziam tanta diferença assim…..
    aprendi muito com esse post……..Parabéns

  5. Simplemente…parabéns! Ótima matéria e belo site também.

  6. Olá amigo, estou estudando o blender com o objetivo de divulgar por meio de cursos e palestras em minha universidade. Faço parte de um grupo de pesquisa de software livre e o blender foi uma das tecnologias escolhidas para popularizarmos a filofia livre. Acredito que seu blog será de grande ajuda e, apesar de estar sobe CC, gostaria de informar a respeito da utilização dos materiais aqui presentes. Estou disponível através to twitter onde comecei a segui-lo.
    Até,

    • Legal saber disso! O Blender está mesmo ganhando cada vez mais espaço, pela vontade e competência dos desenvolvedores em fazer um bom software. E melhor ainda saber da preocupação com a utilização correta de materiais sob CC.

      Abraço!

  7. Cara,baita matéria.hein!Este é sem dúvida o mais bem feito blog brasilero sobre Blender 3D e Computação Gráfica em geral.Parabens!

  8. Muito bom o resumo sobre cores, completo e direto, melhor do que muito livro sobre cores. Parabéns!

  9. […] O Tatasoka, do site Blender Total, publicou um tempo atrás um artigo excelente abordando exatamente esse assunto: teoria das cores. […]

  10. Parabéns, ótimo post, continue assim. Seu trabalho está ótimo.

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